Na cidade de Floresta, em Pernambuco, a promessa de rede de esgoto na periferia sul aparece em placas de obras desde 2022. Os tubos de PVC empilhados ao lado da vala, porém, contam outra história: o cronograma atrasou, a empresa contratada pediu aditivo de prazo e moradores continuam usando fossas improvisadas a poucos metros do canteiro parado. O caso não é exceção no sertão — é sintoma de um padrão que se repete em dezenas de municípios do semiárido nordestino.

O saneamento básico no Brasil ainda é marcado por desigualdade brutal entre regiões. Enquanto capitais discutem privatizações e metas de universalização, prefeituras de pequeno porte no interior enfrentam um quebra-cabeça familiar: falta de equipe técnica permanente, dependência de repasses federais com calendário imprevisível e obras que precisam atravessar períodos de estiagem sem comprometer o abastecimento de água potável.

Repasses e burocracia

O secretário de infraestrutura de Floresta, Antônio Bezerra, concedeu entrevista na sede da prefeitura — um prédio antigo com ventiladores barulhentos e pilhas de processos sobre a mesa. Segundo ele, o município recebeu parte do recurso do programa federal de saneamento, mas a liberação da segunda parcela ficou condicionada a relatórios fotográficos e medições que a equipe local demorou a produzir por falta de engenheiro CLT. "Contratamos consultoria, mas isso come come o orçamento", lamenta.

Em audiência pública realizada em maio, vereadores cobraram transparência sobre cada etapa da obra. Um morador, João da Silva, de 54 anos, levantou uma pergunta que ecoou no salão: "Se a gente paga taxa de lixo e água, por que a vala está aí parada?" A resposta oficial envolve reequilíbrio contratual e troca de fornecedor de tubulação — linguagem que nem sempre chega traduzida à população.

"Quando chove, a rua vira lama. Quando não chove, falta água no poço. A obra era para resolver os dois problemas." — Moradora do bairro São José, Floresta (PE)

Água antes de esgoto

Nos municípios mais secos, a prioridade disputada é o abastecimento. Em Salgueiro e região, carros-pipa ainda fazem rota diária para comunidades rurais distantes da rede urbana. Obras de adutora interligando reservatórios avançaram em alguns trechos, mas manutenção de bombas e energia elétrica onera o custo operacional das prefeituras.

Especialistas em políticas públicas alertam para o risco de obras "emblemáticas" — grandes anúncios com pouca manutenção posterior. A professora de saneamento ambiental Dra. Lúcia Ribeiro, da UFRPE, defende contratos que incluam anos de operação assistida: "Construir rede sem plano de operação é presente que estraga no dia seguinte."

Experiências que funcionam — com ressalvas

Nem tudo é atraso. Em Bodocó, também em Pernambuco, uma parceria com cooperativa de água local permitiu expandir ligações domiciliares em bairro que nunca teve hidrômetro. O modelo envolve taxa social diferenciada e mutirões para cavar valas em trechos de difícil acesso. A prefeita visitou o bairro pessoalmente na inauguração — gesto político, mas também forma de pressionar a empresa contratada a cumprir metas.

No Ceará, consórcios intermunicipais de saneamento ganharam força como alternativa para cidades pequenas dividirem custos de projeto e fiscalização. A ideia é boa na teoria; na prática, exige alinhamento entre prefeitos com agendas eleitorais diferentes.

O que vem pela frente

Com a estação seca se aproximando, moradores de Floresta e cidades vizinhas voltam a monitorar nível de reservatórios e fila de caminhões-pipa. A obra de esgoto retomou movimentação em junho, segundo a prefeitura, com previsão de conclusão parcial até o fim do ano. Até lá, a paciência — e a cobrança nas sessões de câmara — seguem como únicas certezas.

Para o Entorno, acompanhar essas obras é acompanhar o cotidiano de milhões de brasileiros que medem progresso não por discurso em Brasília, mas por torneira que pinga água limpa e rua que não alaga quando chove. No sertão, isso ainda é pauta urgente — e vai continuar sendo por muito tempo.